quarta-feira, 18 de março de 2009

Who Watches the Watchmen?

Quem vigia os vigilantes?


Faz muito tempo que não posto aqui, mas nem tanto que não escrevo, já comecei dois posts, mas sempre acho que tem um assunto mais imediato, que agora o assunto anterior ficou passado, porque ando meio (muito) sem tempo. É que não é só ter o assunto e escrever; arrumar o post bonitinho, achar links e figuras, procurar referências etc são coisas que me fazem gastar um tempo considerável. Eu queria ter terminado meu post sobre Coraline, que escrevi dia 15/02, bem antes desse; mas aí achei que ia sair do clima e esse aqui também ia ficar atrasado.

Quando comecei esse blog, uma das minhas motivações foi que eu queria escrever sobre o filme do Batman. Saí tão empolgada do cinema, pensando no que eu escreveria se fosse uma crítica de revista que acabei escrevendo mesmo. Pra mim, aquele tinha sido o melhor filme de super-heroi já feito, e depois dele só vieram um punhado de decepções no cinema, a começar por Iron Man. Eu estava completamente desanimada com o cinema esse ano, pensando nos montes de porcarias que iam estrear. Coraline eu sabia que ia ser bom; Dragon Ball, eu sei que vai ser ruim. Mas e Watchmen?

Não consegui chegar a uma conclusão, fiquei com um frio na barriga e não me animei muito em ver o filme. O Allan Moore disse que ia ser um lixo, que ele tinha certeza que nenhum diretor seria capaz de transmitir tudo o que Watchmen significava, que a história era feita pros quadrinhos e intransponível a outra forma de mídia.



Afinal, Watchmen é uma espécie de bíblia dos quadrinhos, e mesmo que não seja uma unanimidade monoteísta, já que o universo das HQs tem outros deuses além de Alan Moore, como Frank Miller e Neil Gaiman, é inegável que ela tem um papel de extremo destaque entre suas obras-primas. E é muito difícil agradar os fãs e o resto do público.

No fim das contas, não fiquei muito empolgada com os traileres, que mostravam aquela entrada de Lauren com os cabelos esvoaçantes e cara de mulher fatal. No fim das contas, só fui ver porque um amigo me convidou, mas confesso que achava que ia gastar meu dinheiro à toa.

O resultado foram quase 2h30 de filme que provaram que Zack Snyder é mesmo um gênio e que o Alan Moore é mesmo um chato rabugento. Verdade seja dita, o roteirista não teve trabalho nenhum; simplesmente pegaram os quadrinhos, cortaram um pedacinho aqui e outro ali e filmaram todo o resto, na ordem e com as falas exatas. As adaptações foram mínimas e bem-sucedidas. Essa fidelidade costuma agradar os fãs mais xiitas, aqueles chatos que nem o Alan Moore e que vão ver o filme só pra se irritarem e ver defeitos. Apesar de eu já ter ouvido e lido que o filme devia ter sido mais adaptado e aquela velha história de que quem não leu os quadrinhos não entendeu o filme direito, acho, como sempre, que é balela. É a velha mania de quem leu o original e vai ver o filme mais como uma confirmação ou um extra e considera que por isso a sua capacidade de compreensão é superior à dos outros. Na verdade, é aquele tipo de pessoa que sempre acha que a sua capacidade de compreensão é maior que a dos outros mortais.

Claro que sempre tem aqueles detalhes que só se pega na segunda ou terceira vez que se vê um filme, então quem já está familiarizado com a trama sempre pega alguma sutileza a mais, ou consegue ter uma idéia mais ampla porque tem conceitos que o próprio filme não dá. Fora que é bem mais divertido ir ver um filme de um livro ou quadrinho de que se é fã, com toda aquela expectativa e paixão, pra amar ou odiar o filme no final. Provavelmente, Watchmen seria um filme difícil de entender (e provavelmente infilmável) na década de 80, quando os quadrinhos foram lançados, mas hoje em dia, há muito que o cinema tem uma linguagem eclética, roubando elementos inclusive das próprias HQs, e todo mundo já está acostumado com histórias não-lineares, cheias de flashbacks e personagens. Atualmente, imagino que qualquer criança com mais de 10 anos (ou adulto com essa idade mental) é perfeitamente capaz de entender o filme.


Dá uma olhada no naipe desses caras...


Mas vamos à história. Watchmen foi lançado em 12 volumes ao longo do ano de 1985 nos EUA, e se passa nesse mesmo ano. Trata-se de uma espécie de realidade alternativa em que herois mascarados saíam pelas ruas na época da guerra fria, tanto para tentar conter a violência que aflorava na população pela angústia de uma guerra nuclear iminente quanto para extravasar suas próprias violência e angústia nesse contexto. Os tais “herois” foram compulsoriamente aposentados após uma revolta da população, pelo menos a maioria deles. Alguns passaram a ser procurados pela justiça por não abandonarem a máscara e outros, a trabalhar a favor do governo dos EUA. O que há de genial na história é exatamente a ideia de quem é heroi e quem é vilão em época de guerra, por isso há bastante foco na história de cada personagem, suas motivações e ideais um tanto controversos e seus caráteres e condutas no mínimo um tanto desviados.

Esse tipo de personagem mais humano, com mais defeitos do que qualidades, o que não é muito comum entre os herois, são os que despertam mais amor e ódio pela capacidade de identificação e projeção na vida real, e esse é um dos principais componentes de Watchmen.

Então vamos falar alguma coisinha desses personagens:


Comediante: o mais filhadaputa do grupo, mas também o menos hipócrita. Enxerga que o mundo está uma droga, mas encara isso como uma grande piada, e ele é quem vai rir por último, não importando quantos vietnamitas matar, afinal a guerra é um grande parque de diversões. É superforte e super-sem-caráter, por isso trabalhava para o governo, se divertindo tanto quanto na época de mascarado, até ser assassinado em seu apartamento (calma, não é spoiler, é a primeira cena do filme). É a partir daí que se desenvolve a trama, e a partir da lembrança que os outros têm de sua personalidade “forte” - eufemismo – que os primeiros flashbacks aparecem e conhecemos melhor os personagens.


Dr. Manhattan: o que tem de fato história de heroi e superpoderes de heroi: era um cara mais nerd que o Peter Parker e sofreu um acidente com um equipamento de seu laboratório que o desintegrou por alguns dias, mas ele logo depois apareceu mais fodástico que o superman e com mais poderes do que todos os X-Men juntos, com o pequeno inconveniente de ser azul, brilhante e careca. Mas com aquele corpo avantajado e a mania de andar pelado o tempo todo, virou o namorado da boazuda do grupo. Também é a marionete do governo americano, que o mantém como garantia para que os russos não comecem um ataque nuclear, já que o cara que consegue controlar a matéria e a energia e tem uma compreensão quântica do tempo e do espaço é americano.


Rorshach: o mais próximo de um heroi nos moldes convencionais, e também o mais próximo de um vilão, é o único dos antigos mascarados que continua na ativa. É basicamente um sociopata que encontrou seu lugar no mundo exercendo sua justiça no mundo podre permeado de políticos e prostitutas que não merecem perdão. É ele quem conta a história, obcecado por desvendar o assassinato do Comediante, que acredita ser uma conspiração contra os ex-mascarados. Seus atributos heroicos são uma máscara estilosa, com um tecido que se modifica constantemente (porque foi projetado pelo dr. Manhattan), uma capacidade investigativa acima do padrão (um pouco por ser paranoico e um pouco por ser melhor que o capitão Nascimento em fazer as pessoas falarem) e luta bem.


Night Owl: é o Batman daquele seriado antigão, com uma roupa tosca e uma barriguinha saliente. Tem um certo senso de justiça, e como um bom nerd que gosta de tecnologia, um veículo voador estranho que chama de “Archie” e outros apetrechos high-tech. É meio looser e sem personalidade, tanto que é o segundo Coruja, copiando até a identidade secreta de um ex-heroi que ficou velho e abriu uma oficina mecânica.


Silk Spectre: a gostosona do grupo, filha de outra heroína aposentada que não curtia muito a vida de combate ao crime. Cheia de complexos e protagonista da parte “novela mexicana” da história, mora sob proteção do governo americano por ser mulher do Dr. Manhattan. Suas habilidades são lutar bem e conseguir fazer coisas absurdas com aquele cabelão enorme sem estragar a chapinha.


Ozymandias: depois de se aposentar como super heroi revelou sua identidade e ficou mais rico vendendo bonequinhos dele mesmo, afinal é considerado o homem mais inteligente do mundo. É mais gay que o Robin e obcecado com histórias da antiguidade. Entre suas habilidades heroicas, tem uma velocidade acima do normal.


Então, pelo que eu disse até agora dá pra imaginar por que o filme saiu por aqui com classificação 18 anos (que eu achei um pouquinho exagerada, pra variar). Além das cenas sangrentas ou violentas, a história em si é pesada. Mas o filme como um todo não, porque o clima varia consideravelmente, com algumas cenas cômicas que beiram o ridículo permeando outras capazes de levar a algum mal-estar, e o filme vai ficando menos deprê quanto mais perto vai chegando do final. Enfim, o filme é muito bom e se você não for um velho chato (ou tiver espírito de velho chato) provavelmente vai gostar. Também não dá pra ir esperando um filme no molde dos X-Men ou do Batman, porque não é nada disso.

Resumindo: vá ao cinema que você não vai gastar seu dinheiro à toa. E, se você não foi convencido por essa que vos fala, leia os quadrinhos totalmente de grátis (que podem ser baixados em 3 partes: 1, 2 e 3 – apesar de a qualidade não estar maravilhosa) pra ver se eu não tenho razão. Concordo que não é o gibi mais fácil de ler do mundo, então permita-se ler os primeiros 2 ou 3, a partir de onde a história começa a engrenar, e aí vá ao cinema ver o filme.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Woody Allen

Há um tempinho eu fui ao cinema ver Vicky Cristina Barcelona. É um filme ótimo, com atores ótimos, recomendo que assistam. Conta a história de como uma viagem a Barcelona (e o encontro com um homem por lá) mudou a vida de Vicky e de Cristina, e suas visões a respeito do amor e dos relacionamentos - ou não. O filme é leve e divertido, e claro que grande parte disso se deve ao papel de Penélope Cruz, que recebeu elogios muito merecidos de todas as críticas que vi a respeito do filme. Enfim, assistam que vale a pena.
Mas, como eu disse, vi o filme deve fazer um mês, mais ou menos na época da estréia, mas não escrevi nada aqui. E não foi pelo meu gosto estranho de fazer resenhas de filmes velhos, ou que todo mundo já viu, como eu fiz com Sweeney Todd; é que esse filme me ajudou a desfazer um velho preconceito que eu tinha contra o Woody Allen, e eu pretendia fazer uma mega resenha falando de vários filmes dele.
Claro que, como todas as minhas idéias megalomaníacas de posts absurdos, não deu muito certo. Mas voltemos ao que deu certo. O primeiro filme do Woody Allen que eu vi foi O Escorpião de Jade, um filme bobinho, mas engraçadinho. Mas a maioria das pessoas que eu conhecia diziam que ele era um chato, todos os seus filmes eram chatos ou o odiavam por seus escândalos amorosos (convenhamos que largar a esposa para se casar com a filha - mesmo adotiva - dela não é algo muito aceitável socialmente, pra dizer o mínimo).

Match Point

Mas aí veio o Match Point, um filme brilhante, na minha opinião. Inteligente, forte, criativo, (des)humano, cheio de reviravoltas.
Depois desse, nem Melinda e Melinda nem Scoop chamaram minha atenção, e acabei nem assistindo.

Vicky Cristina Barcelona

E Vicky Cristina Barcelona não me levou ao cinema por muito mais do que uma crítica favorável e uma simples vontade de ir ao cinema (era ou esse, ou 'Queime Depois de Ler', que estava passando em tudo que era cinema).
O filme me surpreendeu, e eu resolvi que gostava, sim, do Woody Allen, e que ia alugar uma porção de filmes dele pra escrever um post sobre seu trabalho. Fui querendo pegar "Dirigindo no Escuro", mas estava locado e acabei levando "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa". Não que o título tivesse me chamado a atenção, a não ser por ser um desses claros exemplos de como os tradutores brasileiros vão muito além de seu trabalho de traduzir ou, no máximo, adaptar, e põem pra trabalhar toda sua veia artística e criativa - afinal, quem iria alugar um filme chamado "Annie Hall" se podemos transgredir totalmente a intenção do autor e dar o título mais idiota que nos vem à mente?
Acontece que quando eu terminei de ver o filme, percebi que seria uma bobagem alugar uma porrada de filmes do Woody Allen e assistir de uma vez, como se fosse Star Wars. Enquanto a maioria dos filmes se limita a seus 90 a 120 minutos e algum comentário posterior, esse era um filme pra ser lembrado, percebido, apreciado, desses que continuam na sua cabeça por horas ou até dias depois que você terminou de ver. Match Point, por exemplo, teve esse efeito em mim; e Annie Hall também.
Neste filme de 1977 conhecemos o atribulado relacionamento de Alvy Singer (Allen), um comediante pessimista que faz análise há 15 anos, e Annie Hall (Diane Keaton), uma cantora jovem e quase tão complicada quanto ele. No começo do filme, após um brilhante monólogo com o espectador, Singer nos conta que eles terminaram, e o restante do filme passa por seus desencontros e paixões, passeios e cursos, discussões e lagostas. Um roteiro digno de uma comédia romântica dessas com o Ben Affleck ou a Meg Ryan, não fossem os diálogos fantásticos e certas cenas deliciosas, como a do jovem Alvy na escola, a da fila do cinema ou a famosa cena em que ele pede a Annie para não fumar maconha antes de transar.
Annie Hall

O resultado é um filme bem acima da média, que rendeu uma porção de oscars - inclusive o de melhor filme - e que proporciona ao espectador algumas boas risadas, outras reflexões pessimistas e uma visão leve e bem-humorada, mas que ainda assim não deixa de ser amarga da vida e dos relacionamentos.
O desfecho salva o filme da idéia de comédia romântica de que o "viveram felizes para sempre" está ligado ao fato de o mocinho e a mocinha ficarem juntos no final - o que é condizente com um personagem que se apresenta com esse texto:

sábado, 3 de janeiro de 2009

Crepúsculo - o filme


Já dava pra ver que tipo de filme era Crepúsculo pelo tipo de pessoas que estavam na sala para assisti-lo. Não fui na época em que lançou, então não pude comprovar que deviam ser essencialmente as mesmas pessoas que foram ver High School Musical 3 por uma questão de amostragem - a sala estava meio vazia, às vésperas do ano novo, em uma das raras sessões legendadas. Mas ainda assim dava pra sentir que a média de idade devia ser uns 15 anos, e que os cromossomos Y eram raros.
Fiquei com vontade de ver o filme no dia seguinte que li o livro, mais por curiosidade do que por qualquer outra razão. E também porque eu queria escrever um post só, falando dos dois. Mas não rolou, e nem rolou escrever esse segundo post no feriado.
Na verdade não há muito o que falar sobre o filme, pois como eu disse post passado, a história do livro é bem bobinha, e o que valorizei nele é a narrativa e como ela é capaz de te puxar para o mundo do livro totalmente. Claro que, despido dessa capacidade como é um filme, impessoal, distante e, invariavelmente, em terceira pessoa, acaba sobrando só a história bobinha.
Mas concordo com uma das resenhas do IMDB, que dizia que conseguiram fazer algo razoável, provavelmente o melhor possível, considerando o material que tinham em mãos. Realmente, foram capazes de, gastando pouco - já que todos os atores são estreantes ou muito estreantes - , faturar alto, pois a bilheteria de Twilight nos EUA superou Indiana Jones 4 e 007 - Quantum of Solace. Claro que grande parte disso se deve ao sucesso absoluto do livro por lá, o que há alguns anos significa segurança de igual sucesso nas bilheterias (tanto que já estão filmando a sequência, Lua Nova), e outra parte se deve ao entusiástico público adolescente do livro, porque afinal não imagino um monte de adultos lotando umas 10 salas em uma pré-estreia dessas à meia-noite de um filme como O Caçador de Pipas. É um público previsível, e, consequentemente, certeiro. (perceberam o consequentemente sem trema e o estreia sem acento?? é, estou tentando me adaptar às novas regras, fazer o que! ^__^)



Voltando ao filme, o enredo é exatamente aquele que eu dei do livro. É um filme de sessão da tarde, bem feitinho, com efeitos bacanas. Não é um filme bom, mas também não é jogar dinheiro fora. Uma vantagem bacana é que o livro tem um pouco mais de ação que o livro, porque confesso que apesar do que eu disse falando bem do livro, acho um pecado um livro sobre vampiros que nos prive da pancadaria. Quando cheguei nas últimas 100 páginas, achei que estava começando ali, embora tardiamente, a ação. Mas o clima só ganhou uma dose de tensão e suspense, e quando chegou a hora da luta do final, a mocinha não viu, e como é um livro em primeira pessoa - e aí está uma grande desvantagem- , nós também não.
No filme falta também uma dose de violência um pouco mais intensa, mas quando seu público-alvo não permite que a classificação etária suba acima dos 12 anos, não imagino muito o que fazer. O mesmo acontece com a sensualidade, que é relativamente bem fraquinha no livro, pra que pais horrorizados não proíbam suas filhinhas inocentes de acompanhar a série.
Apesar de isso não ser muito condizente com a temática de vampiros em si, e com a relação muito clara entre beber sangue e fazer sexo (o desejo incontrolável, a troca de fluidos corporais, a dominação...), que também aparece de certa forma no livro. Afinal, o desejo de Edward quando vê Bella é, de fato, comê-la - e fica claro que em ambos os sentidos, e justamente pela proximidade entre esses dois instintos que ele parece evitar um contato sensual exagerado. Isso é coerente com o mundo adolescente, e apesar do que o cinema muitas vezes nos mostra, as pessoas nem sempre saem por aí transando enlouquecidamente.
Mas uma outra vantagem boa do filme, vocês devem ter reparado já na primeira foto - é um filme que faz muito bem aos olhos pelo elenco eminentemente bonito. Admito que Robert Pattinson (o Cedrico Diggory, de Harry Potter e o Cálice de Fogo), apesar de não ser tão lindo e perfeito quanto o Edward da minha cabeça, chegou bem perto... assim como seus irmãos, principalmente Jasper e Alice, e o pai, dr. Cullen, que também são muito lindos.
Por outro lado, a mocinha (Kirsten Stewart, de O Quarto do Pânico) parece realmente sem graça perto deles, e é bem esquisito vê-la, como eu já disse, em terceira pessoa. Dá quase ciúmes ver alguém usurpando o seu lugar na tela, do lado do mocinho...
Como os atores não são famosos, os personagens são:
Emmet, Rosalie, Esme, Edward, Carlisle, Alice e Jasper


E sempre há a grande desvantagem em relação ao livro - o filme é muito curto. Por mais que seja fiel, e pegue as partes mais importantes e etc, você passa muito pouco tempo e muito poucas situações ao lado dos personagens; por mais que se leia rápido (eu levei cerca de 8h pra ler Crepúsculo) o tempo de filme é comparativamente muito menor, e quando trata-se de um livro sobre apaixonar-se, isso acaba fazendo com que o sentimento pareça mais falso ou forçado, e o limite de tempo não permite as dúvidas, negativas ou hesitações tão numerosas no livro. Talvez quem não tenha lido não repare nisso, mas provavelmente não achará nenhum atrativo em Edward que seja muito maior que a sua beleza - o que não deve ser o caso em um livro sem figuras.
Enfim, a conclusão é essa; se você está esperando um filme de vampiros, desfaça-se dos pressupostos que um filme desse carrega, e pode levar a irmãzinha, o sobrinho, a vó ou quem quer que seja pra ver sem medo, porque os níveis de sexo e violência ficam abaixo de qulquer desenho animado da Disney. Se você não gosta de gastar dinheiro no cinema pra ver filme tipo sessão da tarde, espere sair o dvd e baixe o torrent. Se você é uma menina romântica, vá ver - na verdade, se você for uma menina que gosta de ver meninos bonitos, vá ver.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Um livro para meninas

Apesar do meu punhado de livros pra ler, todos lá esperando do lado da minha cama, ganhei de presente da minha vó o best-seller Crepúsculo, da Stephenie Meyer, que tá fazendo um baita sucesso por aí. Quando fiquei sabendo que eram 4 livros, resolvi começar logo a ler pra ver se terminava antes do prazo de troca e ir na livraria pegar o segundo (rs), mas como foi presente, não sou (muito) trambiqueira, e já prometi emprestar o livro pra meio mundo, me conveci de que não ia trocar o livro, e sim ler rápido o bastante para poder ganhar o próximo de aniversário.
Confesso que nunca tinha ouvido falar da série, a não ser quando minha vó comentou que estava saindo um filme de vampiros baseado em um bestseller, e que devia ser bonitinho. Por um momento me perguntei como diabos um filme de vampiros seria bonitinho, mas desencanei; depois vi o teaser do filme na tv, e foi só. Quando ganhei o livro de presente, li a contracapa e as orelhas (juro que um dia vou parar de fazer isso, porque geralmente acaba estragando pelo menos alguma surpresa do livro). Nada muito chamativo, comecei a ler lembrando dos outros bestsellers de vampiro de que eu tanto gosto.
Aí foi dando pra perceber por que a minha vó classificaria como "bonitinho" um filme sobre vampiros. Nada cheio de ação, lutas e mortes, como os livros do André Vianco; nada sombrio e sensual, como a Anne Rice. Não, o livro parecia mais com algo do tipo "Se a Mia Thermopolis se apaixonasse por um vampiro..." (Mia Thermopolis é a protagonista da série da Meg Cabot, O Diário da Princesa).
O livro é sobre uma paixão adolescente mesmo, com um enredo até certo ponto digno de filme da Disney. A protagonista é Isabella Swan (só Bella), que se muda do ensolarado Arizona pra uma odiada e chuvosa cidadezinha em Washington para morar com seu pai. Quando chega na escola, torna-se o centro das atenções por ser a garota nova da cidade grande, mas apesar dos diversos garotos caindo a seus pés, o centro das atenções dela é a família Cullen, composta por 5 jovens lindos, maravilhosos e isolados do resto da escola. Sempre que está no refeitório, não consegue desviar a atenção do estranhamente belo e pálido grupo, os dois casais (calma, eles são filhos adotivos de um pai casamenteiro) Emmet e Rosalie, Jasper e Alice, e, particularmente, Edward.
O bonitão solteiro não fica indiferente à moça, e age muito estranhamente, lançando-lhe olhares de indignação, nojo e raiva, depois a ignorando completamente, e, finalmente, resolvendo ser gentil e conversar com ela.
Considerando que vocês também devem ler a contracapa e as orelhas do livro, ou ver o trailer do filme, não considero spoiler contar mais que isso; ambos ficam extremamente envolvidos, e Bella, após ver coisas estranhas (como a supervelocidade e a força sobrenatural de Edward) e ouvir as lendas indígenas do local (sabe como é, o de sempre), acaba chegando à conclusão de que seu amado é um vampiro.
É isso, um romacezinho adolescente bem açucarado e previsível... que eu não consegui largar antes de chegar ao fim. Devo ter lido as 400 páginas em umas 8h, divididas em 2 dias, o que contraria absolutamente tudo o que eu disse anteriormente que parecia apontar que eu não gostei. Gostei sim. Como eu disse no título, é um livro pra meninas, e eu sou uma menina, apesar de não parecer. Mais do que isso, é um livro pra pessoas românticas, e talvez pelas garotas serem mais propensas a isso, avaliei o livro dessa forma. Mas não desfaço minha impressão de que um homem (ou mesmo uma mulher como a Anne Rice) não poderia tê-lo escrito.
Essa é a Stephenie Meyer, coloquei as duas fotos só porque
quando as encontrei, fiquei impressionada com
o que um
corte de cabelo e uma maquiagem pode fazer com uma pessoa...


Como eu já disse em outro post também, reconheço o mérito de livros que conseguem vender aos montes, e fazer milhões de crianças e adolescentes largarem a televisão por uns instantes. Claro que logo depois eles se enfiam nas milhares de comunidades, blogs e fãs-clubes do mais recente casal de heróis do livro novo, mas isso também é inevitável. Sair um filme do livro rapidinho pra ver se botam de novo os adolescentes na frente da tela e uns milhões no bolso também é.
E também já falei um pouco da receita desses best-sellers - linguagem simples (o fato de serem traduzidos de outra língua costuma ajudar), parágrafos, frases e idéias curtas. Uma uniformidade estilística que me faz ser incapaz de distinguir a individualidade dos autores se me derem só os textos pra ler (menos o Stephen King, porque ele é demais). Só que Stephenie Meyer, nesse livro, tem um mérito a mais: poucas vezes eu consegui me identificar tanto com um personagem.
Com a vantagem de ser em primeira pessoa, o que dispensa auto-descrições, o leitor literalmente é Bella Swan, pensa o que ela pensa, vê o que ela vê, tudo atravás dos olhos de uma garota comum, afinal quem não se acha esquisita, tem problemas de comunicação com os pais, odeia as pessoas da escola (e a educação física) e sonha com o príncipe encantado? Pelo menos pra mim, o apelo funcionou bem, e eu ri junto com ela, fiquei angustiada, esperava ansiosa pra ver se Edward iria à escola hoje, se apareceria de novo pra me salvar na hora certa... e antes da página 150, eu também estava perdidamente apaixonada por Edward Cullen, pensando em quando o veria de novo após largar o livro pros "afazeres humanos", que de repente pareciam supérfluos, como comer.
Afinal, não é difícil se apaixoinar por um cara cujo único e terrível defeito é justamente algo tão fascinante como ser um vampiro fofo que nem se alimenta de sangue humano. É demais para a cabeça de qualquer uma. E fora o comum de Bella que a faz se identificar fácil com o leitor, não dá pra esquecer do sentimento que permeia os parágrafos, tudo descrito em primeira pessoa, tudo tão real. Todo mundo que já esteve apaixonado é capaz de se reconhecer nas páginas do livro - afinal, todo apaixonado é um melodramático romântico pronto a dar a vida por seu amor exageradamente maravilhoso (oh, meu deus, o que ele pode ter visto em alguém como eu?). E é por isso que eu perdôo o teor totalmente açucarado, exagerado e adolescente de Crepúsculo, e estou relativamente ansiosa para ler a continuação, Lua Nova (não é nada como um Harry Potter, mas enfim).
Objetivamente, reitero o que eu disse - não recomendo esse livro pra ninguém que ou não esteja na adolescência ou que ache sentir-se um adolescente de novo é algo idiota e quer fazer algo mais útil da vida, algo interessante como fazer o imposto de renda. Porque é difícil pensar em alguma coisa divertida na vida de um adulto que não seja fazer algo de criança ou de adolescente de novo, não é? Recomendo o livro pros românticos e apaixonados, ou que querem se apaixonar de novo, e talvez até pros meninos. Afinal, não vamos subestimá-los, não é, se eu sou capaz de entender e gostar de um livro eminentemente para homens de 40 e poucos, como O Lobo da Estepe, porque um cara não poderia gostar de um livro pra meninas de 17? É uma questão de ser eclético e de ser capaz de se identificar simplesmente com sentimentos humanos.
Pra esse post não ficar muito grande, vou falar do filme só amanhã! =)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Sidney Harris

Um belo dia fui estudar pra uma prova de japonês na Biblioteca Central da Unicamp, e, pra variar, resolvi perder um pouquinho de tempo na livraria que tem lá dentro. Tinha uma mesa do lado de fora cheia de livros da editora da Unicamp, da Unesp, etc na promoção, e livro em promoão é um perigo pra mim. O que algumas pessoas têm com sapatos, roupas, jogos eu tenho com livros, e admito que meu consumismo literário é superior à minha capacidade de leitura. E como eu tinha ido há pouco tempo na Bienal e atualizado minha já grande fila de livros pra ler, senti a consciência pesar e resolvi não comprar nenhum livro de 400 páginas sem figuras (porque eu estava bem inclinada a comprar um do Eric Hobsbawm). Foi aí que eu vi o livro "A Ciência Ri", uma coletânea do cartunista Sidney Harris.
É, eu nunca tinha ouvido falar nele também, mas um livro de tirinhas, charges, cartuns sempre é uma boa opção pra quem está sem tempo de ler. Depois de dar uma folheada, não foi difícil admirar seu humor tipicamente nerd sobre Biologia, Medicina, Psicanálise, Matemática, Física ou Tecnologia. E foi mais fácil ainda comprar o livro e não resistir a ler inteirinho até de tarde. Mas eu até que consegui estudar pra prova de japonês.
Sidney Harris é um cartunista americano nascido no Brooklin e formado em arte. Começou sua carreira em 1955 e publicou em vários dos mais importantes periódicos de ciência dos EUA, como American Scientist, Science, Discover, Physics Today, The New Yorker, The Wall Street Journal, entre outros.
Apesar de não ter nenhuma formação científica, ele dá conta de tirar o humor de diversas especificidades das mais diversas áreas, então não fique triste se você não entender alguma piada (pelo menos eu não entendi várias). As charges dos meus posts sobre ciência são dele, e eu tirei desse site, que tem algumas horas de diversão.
E, pra ilustrar esse post, vou aproveitar que semana que vem já é Natal e colocar algumas das charges dele sobre esse tema, que são malvadas mas pegam bem o espírito natalino de hoje em dia...

Doe aos ateus e agnósticos necessitados que
não têm nenhum feriado nessa época do ano

"Diga - o que todo esse negócio religioso
está fazendo nesses cartões de Natal?"

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Educação

Eu sei que a notícia é meio velha, mas como faz parte do meu dia-a-dia, resolvi colocar aqui. As fontes são o Jornal de Londrina e o portal Paraná Online.

A colação de grau de 14 alunos do curso de Medicina da Universidade Estadual de Londrina (UEL) foi suspensa, após aprovação de uma moção de repúdio do Conselho Universitário (Coun). No último dia 20, depois de uma comemoração de final de curso, os estudantes resolveram prolongar a festa no Hospital Universitário (HU). Segundo a coordenadora, funcionários do PS disseram que os alunos entraram no local portando bebidas alcoólicas, alguns em estágio de embriaguez, fazendo “apitaço” e soltando fogos de artifício no pátio do hospital. “Os pacientes e funcionários ficaram assustados, alguns acharam que o prédio estava sendo invadido, além de o atendimento ficar prejudicado”, comenta. A conduta contraria o regimento interno da instituição. Em ofícios encaminhados à direção da UEL, o diretor superintendente do HU, Francisco Eugenio de Souza e o diretor-clínico, Marcos César de Camargo, pedem providências para a conduta incomum e reprovável dos estudantes. “Entre as medidas cabíveis neste caso estão a reprovação dos acadêmicos no estágio, uma vez que as notas não foram lançadas, com isso não houve a conclusão do oficial do curso. Desta forma, os estudantes serão obrigados a refazer todo o estágio. Eles também poderão receber uma reprimenda oral e em última instância serem expulsos do curso”, explica a coordenadora do curso de medicina. Sem a colação de grau, os 14 alunos ficam impedidos de se inscrever para a residência médica, tendo que esperar, no mínimo, mais um ano para isso. A única forma dos estudantes envolvidos na confusão colarem grau é com a obtenção de um mandado de segurança. André Ramos Sorgi Macedo, que se identificou como um dos estudantes que participaram da festa, negou as acusações feitas pela direção do HU. Segundo Macedo, cerca de 50 formandos participaram da comemoração e todos os funcionários e pacientes foram avisados com antecedência da realização da troca de plantão. “Este é um ritual tradicional quando os formandos passam o plantão para os alunos do quinto ano do curso. Algumas pessoas cantaram mais alto, porém, nós avisamos a todos e os pacientes ficaram isolados, alguns até participaram e riram da brincadeira. Não ficamos mais de 15 minutos no corredor do PS. Com isso, o atendimento não foi prejudicado como a direção afirma”, explica. De acordo com o acadêmico, nenhum dos formandos estava bêbado, no entanto, ele confirmou que foram levadas três garrafas de champanhe para dentro do PS. “Talvez o único excesso foi levar as garrafas para dentro do hospital e uma que estourou e sujou o chão. No entanto, ninguém estava embriagado”, afirma. Macedo também nega que os formandos tentaram quebrar equipamentos e acusou o diretor clínico do hospital, doutor Marcos César de Camargo, de chamá-los de marginais. “Nós nem encostamos as mãos nos equipamentos, pois ficamos apenas no corredor. O diretor clínico do hospital, que estava de plantão no dia, foi quem chegou nos chamando de marginais e que teríamos 10 minutos para deixar o PS. Porém, na nossa turma não há nenhum marginal”, ressalta.

"Eu quase me formei."


É, tem muita gente discutindo a educação médica por aí, mas o que me parece que está faltando bastante é a educação em casa mesmo. É inaceitável que um bando de idiotas que não é capaz de respeitar um ambiente hospitalar estejam lá, fazendo o juramento de hipócrates e de CRM nas mãos, cuidando dos outros.
Agora chamar de "tradição" um monte de gente comemorando de forma barulhenta num lugar em que as pessoas estão sofrendo, com dor, doentes, pra mim é muita cara de pau. Pra mim são sim, um bando de marginais.
E não acho que seja só lá no Paraná não, dá pra ver algum tipo de falta de respeito com os pacientes todo dia na minha faculdade também. Não me surpreenderia se a notícia fosse de lá, nem se o idiota tentando justificar o injustificável como tradição, brincadeira inofensiva e todo o blábláblá de sempre fosse da minha sala. Afinal, eu já ouvi cada uma...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Ciência 4: do para onde vamos ao de onde viemos

Quase acabei de ler o livro sobre Filosofia da Religião que estava lendo, e retomei O Mundo de Sofia e o Fundamentos de Filosofia, do Gilberto Cotrim, meu livro do colegial que ficava o ano todo trancado no armário sem ver a luz do dia. Isso porque eu acabei indo atrás de Descartes e outros filósofos por causa do post passado, e estava me sentindo meio burra nesse livro de Filosofia da Religião, já que o autor é meio academicista e gosta bastante de fazer citações sobre as quais me dei conta de saber muito pouco.

Demorei pra escrever esse post porque estava esperando os comentários – nenhuma idéia muito bem formada substitui uma boa discussão - e já que eu me propus a separar a última parte da série sobre ciência em duas, não faria sentido escrever o texto inteiro que estava na minha cabeça naquele momento e cortá-lo em dois. Por isso o que está saindo aqui está bem diferente do que eu imaginei ou do que eu teria escrito semana passada, mesmo porque andei lendo muito essa semana, e o que as pessoas comentam sempre ajudam a manter as idéias mais vivas.


Vamos começar pelos dogmas. Um dogma é uma verdade inquestionável, e uma doutrina é dogmática quando defende a possibilidade de atingirmos a verdade. O dogmatismo ingênuo é aquele do senso comum, que acaba simplesmente ignorando a existência da chamada “Teoria do Conhecimento”, e não vêem, portanto, nenhum problema na relação do sujeito conhecedor e do objeto conhecido – ou seja, não é difícil ver o mundo como ele é. Já o dogmatismo crítico diz que unindo os esforços de nossos sentidos e de nossa inteligência, temos capacidade de apreender a verdade. Prestem atenção aí que estamos falando dos sentidos – empirismo – junto com a inteligência – razão –, ficando claro que o dogmatismo crítico defende que aliando o método, a razão e a ciência, o ser humano se torna capaz de conhecer a realidade do mundo. Daí, dizer que pelo fato de buscar a experiência empírica, a ciência “não aceita dogmas” é um pouco equivocado, como vários filósofos acabaram provando no decorrer dos séculos. Por isso volto a defender que o dogma daqueles que acreditam cegamente na ciência é tão forte quanto aquele dos religiosos.

Já que eu falei dela, a Teoria do Conhecimento está entre os grandes temas da Filosofia desde a Grécia. Como o homem pode compreender a si e ao mundo se há limitações na própria capacidade humana de entender? É um tema muito amplo, e defende-se principalmente o empirismo e o racionalismo como origens do conhecimento e, as principais correntes que explicam a possibilidade do conhecimento são, bem grosseiramente:

  • Ceticismo absoluto: os representantes principais foram Górgias e Pirro, que diziam que todo conhecimento é subjetivo, sujeito aos erros do sentido e à limitação de nossa inteligência (para Pirro, isso era óbvio pela existência de opiniões tão diferentes e contraditórias pelos homens), sendo que assim nada é verdadeiro;
  • Subjetivismo: diz que o conhecimento é uma relação única entre o sujeito e a realidade, sendo “o homem a medida de todas as coisas” (Protágoras, séc. V a.C.);
  • Relativismo: as verdades não são absolutas e estão restritas a uma validade limitada a certo tempo e a determinadas situações;
  • Probabilismo: defendido por Hume, diz que tudo o que sabemos limita-se a uma probabilidade, e nunca a uma verdade plena, pois estamos sempre nos limitando às experiências anteriores para fazer previsões mais ou menos confiáveis, mas nunca absolutas;
  • Pragmatismo: só é verdadeiro aquilo que é útil, que dá certo, que serve aos interesses das pessoas em sua vida prática.

Fora essas, há o Dogmatismo, que eu já expliquei, e o Criticismo, que é basicamente a filosofia de Kant, que vou explicar com mais cuidado daqui a pouco.

É interessante que em O Mundo de Sofia, uma frase que o filósofo Alberto gosta de dizer a Sofia é que “é fácil ser mais inteligente depois”. Aí voltamos aos paradigmas de que falei no post passado – ou seja, assim como há inúmeras correntes filosóficas, há inúmeras formas de enxergar o mundo, a razão, o conhecimento, a ciência.


Deixa eu puxar outro exemplo da minha faculdade. Quando uma pessoa tem uma fratura que secciona a medula, ela perde a movimentação e sensibilidade daquele nível pra baixo. Vimos um ambulatório em que esses pacientes paraplégicos recebem choques nessas áreas paralisadas que comandam os músculos a se contraírem, e assim, apertando botões em um tipo de andador que ativam diferentes grupos musculares por vez, conseguem andar. Até aí ok, porque apesar de os neurônios que chegariam nos músculos estarem rompidos, não chegando à medula ou ao cérebro, o estímulo elétrico exógeno faz as vezes de dar o estímulo necessário. Só que esses pacientes, com esse tipo de tratamento precoce, estão readquirindo os movimentos musculares sem a ajuda dos eletrodos, com controle voluntário. Isso é totalmente impensável no que sabíamos até agora; se o nervo não chega no cérebro, como um estímulo cerebral pode mover o músculo? Ninguém sabe. É um bom exemplo de um empirismo que está limitado à observação e ainda não encontra um paralelo na razão.

Poderia ser, na filosofia de Hume, chamado até de milagre. Para ele, se soltamos uma pedra, podemos afirmar que ela cai pela vasta experiência que temos em soltar pedras. Mas isso, segundo ele, não é uma verdade absoluta, e sim uma probablidade – se a pedra continuasse flutuando, ou caísse pra cima, teríamos presenciado um evento raro na natureza, mas que se de fato ocorreu, é um fenômeno natural, mas pelo fato de nós não estamos habituados a ele, chamamos de milagre.(Vejam bem, não estou dizendo que os pacientes voltarem a andar seja de fato um milagre.)

Chegamos finalmente em Kant, cuja obra mais famosa é a Crítica da Razão Pura. Para ele, a nossa razão possuía certas premissas, como por exemplo o tempo e o espaço (que pra ele, discordando nesse ponto de Hume, eram anteriores à própria experiência). Assim, a razão não deve ter uma importância tão exagerada porque não é um local de experiências e impressões objetivas, mas é também criativa. É como se a realidade fosse a água, e a nossa razão fosse um jarro. Jamais conseguiremos apreender a forma pura e absoluta da água, que sempre tomará a forma do jarro – a diferença entre as coisas “em si” e em como elas se nos mostram.


Agora vamos ao título do post. As grandes questões filosóficas que se impõem desde a Antigüidade e se mantêm até hoje, são, basicamente: se o homem possui uma alma imortal, se Deus existe, se a natureza é composta por unidades mínimas indivisíveis e se o universo é finito ou não. Basicamente, para onde vamos (depois da morte) e de onde viemos. Aqui é onde a Religião se aproxima de novo da Ciência, porque é a essas grandes questões filosóficas que ambas buscam responder. É por isso que criamos aceleradores de partículas, viajamos para o espaço, procuramos cada vez mais meios de prolongar a vida.

Kant achava, e eu concordo com ele, que o homem jamais seria capaz de chegar a um conhecimento seguro a respeito dessas questões – pelo menos através da razão. Isso porque uma das características que ele defendia como inatas da razão humana era a busca de relações causais. Em O Mundo de Sofia, o exemplo que se usa é o de que ao jogar uma bola do lado de um gato, ele corre atrás dela; se jogá-la ao lado de uma pessoa, ela vira-se para saber de onde veio a bola. Mas se estamos dentro da bola, como seremos capazes de enxergar de onde ela veio?

Para a razão, portanto, faz tanto sentido dizer que o mundo teve um começo no tempo, quanto dizer que não houve começo algum, pois ela é incapaz de abarcar qualquer das possibilidades; nenhuma faz sentido, racionalmente, mas uma das duas tem de ser verdade. Por isso, para Kant, a teoria cartesiana do post passado está furada, pois não há meios racionais para provar a existência de Deus – nem tampouco para refutá-la. É nessa zona obscura em que não consegue chegar nem a razão nem a experiência que encontra-se a fé. É por essas e outras que tanta gente diz que o ateísmo é uma espécie de religião; eu pelo menos, não consigo imaginar um meio de ser ateu que não seja usando de tanta fé quanto se precisa para ser religioso. Claro, considerando as pessoas que realmente pensam a respeito do assunto, pois acho que tanto um lado quanto o outro são compostos por uma maioria cega que encontrou um espaço mais cômodo em uma opinião formada, lapidada e consagrada.

Se o divino é uma criação do homem a sua imagem e semelhança, necessário à moral e à formação do indivíduo (como defendia Freud) ou desnecessário e prejudicial à sociedade e à própria humanidade (como defendia Feuerbach); ou se o homem ou tudo o que cremos existir sequer existe em matéria, e não passa de uma manifestação divina pura (como defendia Berkeley); ou se somos unos com Deus e com o resto do Universo (como afirmava Plotino e outros místicos como Swami Vivekananda ou Radhakrishnan), são coisas que eu não sei e provavelmente nunca vou saber. E, a meu ver, nem a ciência.


Só pra terminar, já que o Gustavo falou da experiência mística. Nela, quase toda a filosofia da religião perde um pouco de seu valor, pois há o contato e há o empírico. Mas eu discordo um pouco do que ele disse, que acaba sendo um ponto de vista bem negativo da religião, como se só o místico fosse verdadeiro – típico de um empirista. Eu não diria que a religião é o místico morto e petrificado, e sim simplificado e talvez massificado. Não dá pra esquecer que, em geral, a religião é em si o principal caminho pra experiência mística. E, usando a analogia que você disse, o orgasmo é fantástico, mas tem todo o sexo antes. Ou a masturbação, ou o beijo, ou o relacionamento em si. E o sexo não precisa terminar em orgasmo pra ser muito bom! ; )


Sei que esse texto ficou absurdamente comprido e fugiu bastante do tema da própria ciência em si pra se perder na filosofia. Isso porque ele era uma continuação de outro texto (que também se perdeu bastante, porque eu ia falar bastante do darwinismo por aqui, e o assunto nem apareceu; mas oportunidades não vão faltar) e porque eu estou lendo muito sobre filosofia.

Mas pros preguiçosos, pretendo dar uma folga e os próximos posts serão sobre amenidades, ou notícias, ou cinema.