quinta-feira, 24 de julho de 2008

Por que não ler só por ler?

Esse mês eu fui no EiRPG (Encontro Internacional de RPG).
Aliás, adoro julho; tudo acontece em julho. A pior coisa de julho é que eu tenho que escolher o que fazer, sempre tem mais de uma opção para o mesmo fim-de-semana.
Voltando, eu fui no EiRPG e vi uma palestra do André Vianco, autor de Os Sete e Sétimo, e, se não o melhor escritor brasileiro de terror, o mais bem-sucedido. Ele contou que escreve 4 páginas por dia, todos os dias, o que faz com que ele consiga ter um romance publicado a cada 6 ou 8 meses. Disse também que ele está pouco se lixando pra quem acha que o que ele faz não é Literatura, que autor de verdade é aquele que escreve um livro a cada 5 anos. "Eu pago as minhas contas com os livros que eu escrevo, vivo bem e viajo duas vezes por ano com toda a minha família só com esse dinheiro. Pra quem era operador de telemarketing, pra mim isso é um sonho."
Acho muito injusto quem acha que "Literatura" é só arte. Pra mim, Literatura é saber contar histórias. Considerar que não vale a pena ler certos livros só porque estão na lista dos mais vendidos me soa como um pseudo-intelectualismo meio infantil.
Quer dizer que cinema é só David Lynch, Lars von Trier e Almodóvar? Só porque é Hollywood não é cinema? Pode ser que não seja um cinema artístico, mas é cinema, se cinema for contar uma história usando uma câmera. Desprezar o Cinemark e ir só no Espaço Unibanco pro resto da vida me parece, afinal, uma perspectiva muito chata. (Na verdade, do último filme do David Lynch a que eu tentei assistir, não entendi nada.)
Com Literatura acho que é mais ou menos a mesma coisa: Adoro o Neil Gaiman e o Stephen King, mas pelo talento de contar histórias, e não pelas habilidades artísticas. Só porque uma coisa é feita para vender, não significa que seja ruim. Alencar e Machado de Assis ganharam bastante dinheiro escrevendo o que hoje todas as tias Marocas mandam a gente ler na escola, mas que na época era publicado como novelas em jornais.
Leio Saramago, sim, mas levo um tempão pra terminar um livro dele. Agora se você for me dizer que O Código da Vinci ou O Caçador de Pipas, que são ambos livros sem complexidade estilística nenhuma (nenhuma frase tem mais de três linhas e nenhum parágrafo tem mais de oito), são livros ruins só por isso, sinto muito em ter que discordar.
São livros que cumprem muito bem seu papel como entretenimento, que contam histórias interessantes de um jeito que te prende (típicos livros que se lê 'em uma sentada').
Eu sinceramente admiro esses autores que conseguiram realizar, pelo menos em parte, um sonho que Monteiro Lobato nunca viu concretizado, que são milhares de brasileiros que, ao invés de assistirem à TV Minuto no metrô, voltam pra casa lendo um livro de mais de 300 páginas!
(Aliás, desculpe, sr. Lobato, mas Harry Potter é muito mais divertido do que o Sítio do Pica-Pau Amarelo!)

11 comentários:

Douglas Neves disse...

Ok, ok, estou vendo que a minha crítica gratuita à revista veja, principalmente ao "Os Mais Vendidos", casou uma certa revolta, hehehe.
O problema é que a crítica não era gratuita, eu só esqueci de colocar o link: http://luis.nassif.googlepages.com/osmaisvendidos
talvez agora faça mais sentido, vou corrigir meu post :)

E quanto a "Código DaVince" e "Apanhador de Pipas", eu li ambos, e preferia não ter lido.
São livros fáceis de ler, como você disse, e eu não acho que isso seja uma qualidade ruim, na verdade eu acho uma coisa ótima pois não sou alfabetizado o suficiente para ler livros difíceis.
O problema é que eles não adicionaram absolutamente NADA na minha vida. Se é assim prefiro assistir TV, entende?
Sobre "Harry Potter" vou evitar comentar, não quero magoar ninguém ;)

Ainda assim, legal o post! :)
São de opiniões verdadeiras que os blogs precisam, e é exatamente o que você tem feito. Parabéns!

Douglas Neves disse...

Ehr... "Da Vinci" e não "DaVince"...
Falei que eu não era alfabetizado o suficiente! ;)

Érika Pellegrino disse...

"O problema é que eles não adicionaram absolutamente NADA na minha vida. Se é assim prefiro assistir TV, entende?"

É exatamente sobre isso que eu estou falando. Por isso o título "por que não ler só por ler". Não preciso que tudo o que eu leio/assisto/faço acrescente alguma coisa na minha vida.
Ninguém reclama que um jogo de videogame não é cultural.
Isso só acontece com livros porque parece que pras pessoas, ler é um esforço tão descomunal que PRECISA ter algum significado, não pode ser só diversão.
Intelectualmente, nenhum dos dois livros me acrescentou nada, da mesma forma que Star Wars ou Crono Trigger não me acrescentaram. Pra mim, significaram absolutamente a mesma coisa: horas de lazer e diversão, e pra mim é isso que os livros também devem ser.

Douglas Neves disse...

Hehehe, pra mim não serve.
Se eu leio um livro e ele não me adiciona nada, eu me sinto um pouco enganado.
Acho que existe mesmo esse tabu de que leitura SEMPRE deve adicionar cultura e informação às nossas vidas, coisa que a gente não espera da TV ou da revista Veja.

Só sei que quando eu leio alguma coisa eu quero que ela tenha utilidade. Nem que a utilidade seja dar algumas risadas.

Ah, e pra provar minha incultês, detestei quase 100% dos livros que fui obrigado a ler da escola. Principalmente aqueles de índios ou aqueles com enredos iguais a novelas da Globo. Lembro quando eu terminei de ler "Fogo Morto"... aquilo é um ritual de tortura, e não um livro.
Obs: não faço a MENOR idéia do enredo desse livro...

Érika Pellegrino disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Érika Pellegrino disse...

"Fogo Morto" é mesmo uma droga. =)
Eu quase me empolguei e comecei a escrever como a tia Marocas é uma das principais responsáveis pelo fato de os brasileiros lermos tão pouco, mas resolvi deixar pra outro post (senão ninguém tem saco de ler). Graças à minha professora da 8ª série, eu quase odiei o Machado de Assis, o mesmo que deu nome a este blog.

Drewa disse...

Oi, eu sou amigo do Doug e cheguei no teu blog a partir do post dele de hoje.

Assim, eu concordo em termos com vc. Acho que ler esses livros "comerciais", como eu gosto de chamá-los, não tem nada d+. É apenas mais uma forma de lazer como vc falou, assim como assistir Star Wars ou jogar Chrono Trigger. Aliás, entre ler um livro desses e assistir a um filme similar, hoje em dia sou mais ler um livro. Vc usa mais a imaginação, sem falar que passa a escrever melhor também.

Mas o que acho ridículo são as pessoas que dizem que gostam de ler, mas que lêem apenas os tais "livros comerciais".

Bom, é isso aí. Parabéns pelo blog!

Érika Pellegrino disse...

Oi!
Obrigada pela força!
Eu lembro de você, pegamos carona juntos depois do chá bar do Douglas e da Pri!
Sou a namorada do Bruno...hehe
Vc tem algum blog também?
minha seção de links ainda ta vazia! =)

OvO disse...

hehe, adoro a lista de livros mais vendidos!!! Não qu eu vá ler todos, mas quem lê alguma coisa já possui um perfil muito diferente de quem fica sentado no sofá assistindo novela, e se tem tanta gente assim comprando esses livros é por que o boca a boca, que é como a maioria dos livros se vende, foi positivo.

Aliás, Stephen King é O contador de histórias. Digo isso que apesar do quadrinho contar muita coisa, incluive, tenho um amigo que leu o quadrinho antes dos livros, e apesar de contar de uma forma visual e mito boa, o livro possui uma cadência sensacional que te prende a querer ler mais e mais. Concordo com o Vianco, se fazer alguem pegar um livro e querer `engolir` ele, livros que são 2h da manhã, vc está com sono, quase morrendo e vai ter que trabalhar no dia seguinte, mas ainda pensa: `não, só mais um capítulo`, bom, para mim, isso é realmente saber escrever, não que isso seja melhor que os classicos da literatura, mas sem sombra de dúvida, São uma forma evoluida de escritores...

^_^ v

Ortega disse...

Palmas, palmas!
"contar histórias" pra mim é tudo. É o que realmente importa num escritor.
Nem vou me por a falar (er... escrever) sobre as minhas idéias de que a atividade mais nobre do ser humano é o entretenimento nem da beleza das histórias simples pq senão vai ficar maior que o post.

Pena que eu to sempre vários posts atrasado nesse blog! uhauha

Julio Lucchesi disse...

Adoro os filmes do Espaço Unibanco, mas não deixei de ver a trilogia da Identidade Bourne (nem parei de jogar Final Fantasy, se for pra manter a imagem dos videogames nos posts, hehehe). Acho que a "grande arte" e essa, sei lá, "arte menor" (?) não se invalidam. O segredo é chegar num equilíbrio: nem só Star Wars e nem só Almodovar (que, aliás, eu odeio!).