quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Ciência 4: do para onde vamos ao de onde viemos

Quase acabei de ler o livro sobre Filosofia da Religião que estava lendo, e retomei O Mundo de Sofia e o Fundamentos de Filosofia, do Gilberto Cotrim, meu livro do colegial que ficava o ano todo trancado no armário sem ver a luz do dia. Isso porque eu acabei indo atrás de Descartes e outros filósofos por causa do post passado, e estava me sentindo meio burra nesse livro de Filosofia da Religião, já que o autor é meio academicista e gosta bastante de fazer citações sobre as quais me dei conta de saber muito pouco.

Demorei pra escrever esse post porque estava esperando os comentários – nenhuma idéia muito bem formada substitui uma boa discussão - e já que eu me propus a separar a última parte da série sobre ciência em duas, não faria sentido escrever o texto inteiro que estava na minha cabeça naquele momento e cortá-lo em dois. Por isso o que está saindo aqui está bem diferente do que eu imaginei ou do que eu teria escrito semana passada, mesmo porque andei lendo muito essa semana, e o que as pessoas comentam sempre ajudam a manter as idéias mais vivas.


Vamos começar pelos dogmas. Um dogma é uma verdade inquestionável, e uma doutrina é dogmática quando defende a possibilidade de atingirmos a verdade. O dogmatismo ingênuo é aquele do senso comum, que acaba simplesmente ignorando a existência da chamada “Teoria do Conhecimento”, e não vêem, portanto, nenhum problema na relação do sujeito conhecedor e do objeto conhecido – ou seja, não é difícil ver o mundo como ele é. Já o dogmatismo crítico diz que unindo os esforços de nossos sentidos e de nossa inteligência, temos capacidade de apreender a verdade. Prestem atenção aí que estamos falando dos sentidos – empirismo – junto com a inteligência – razão –, ficando claro que o dogmatismo crítico defende que aliando o método, a razão e a ciência, o ser humano se torna capaz de conhecer a realidade do mundo. Daí, dizer que pelo fato de buscar a experiência empírica, a ciência “não aceita dogmas” é um pouco equivocado, como vários filósofos acabaram provando no decorrer dos séculos. Por isso volto a defender que o dogma daqueles que acreditam cegamente na ciência é tão forte quanto aquele dos religiosos.

Já que eu falei dela, a Teoria do Conhecimento está entre os grandes temas da Filosofia desde a Grécia. Como o homem pode compreender a si e ao mundo se há limitações na própria capacidade humana de entender? É um tema muito amplo, e defende-se principalmente o empirismo e o racionalismo como origens do conhecimento e, as principais correntes que explicam a possibilidade do conhecimento são, bem grosseiramente:

  • Ceticismo absoluto: os representantes principais foram Górgias e Pirro, que diziam que todo conhecimento é subjetivo, sujeito aos erros do sentido e à limitação de nossa inteligência (para Pirro, isso era óbvio pela existência de opiniões tão diferentes e contraditórias pelos homens), sendo que assim nada é verdadeiro;
  • Subjetivismo: diz que o conhecimento é uma relação única entre o sujeito e a realidade, sendo “o homem a medida de todas as coisas” (Protágoras, séc. V a.C.);
  • Relativismo: as verdades não são absolutas e estão restritas a uma validade limitada a certo tempo e a determinadas situações;
  • Probabilismo: defendido por Hume, diz que tudo o que sabemos limita-se a uma probabilidade, e nunca a uma verdade plena, pois estamos sempre nos limitando às experiências anteriores para fazer previsões mais ou menos confiáveis, mas nunca absolutas;
  • Pragmatismo: só é verdadeiro aquilo que é útil, que dá certo, que serve aos interesses das pessoas em sua vida prática.

Fora essas, há o Dogmatismo, que eu já expliquei, e o Criticismo, que é basicamente a filosofia de Kant, que vou explicar com mais cuidado daqui a pouco.

É interessante que em O Mundo de Sofia, uma frase que o filósofo Alberto gosta de dizer a Sofia é que “é fácil ser mais inteligente depois”. Aí voltamos aos paradigmas de que falei no post passado – ou seja, assim como há inúmeras correntes filosóficas, há inúmeras formas de enxergar o mundo, a razão, o conhecimento, a ciência.


Deixa eu puxar outro exemplo da minha faculdade. Quando uma pessoa tem uma fratura que secciona a medula, ela perde a movimentação e sensibilidade daquele nível pra baixo. Vimos um ambulatório em que esses pacientes paraplégicos recebem choques nessas áreas paralisadas que comandam os músculos a se contraírem, e assim, apertando botões em um tipo de andador que ativam diferentes grupos musculares por vez, conseguem andar. Até aí ok, porque apesar de os neurônios que chegariam nos músculos estarem rompidos, não chegando à medula ou ao cérebro, o estímulo elétrico exógeno faz as vezes de dar o estímulo necessário. Só que esses pacientes, com esse tipo de tratamento precoce, estão readquirindo os movimentos musculares sem a ajuda dos eletrodos, com controle voluntário. Isso é totalmente impensável no que sabíamos até agora; se o nervo não chega no cérebro, como um estímulo cerebral pode mover o músculo? Ninguém sabe. É um bom exemplo de um empirismo que está limitado à observação e ainda não encontra um paralelo na razão.

Poderia ser, na filosofia de Hume, chamado até de milagre. Para ele, se soltamos uma pedra, podemos afirmar que ela cai pela vasta experiência que temos em soltar pedras. Mas isso, segundo ele, não é uma verdade absoluta, e sim uma probablidade – se a pedra continuasse flutuando, ou caísse pra cima, teríamos presenciado um evento raro na natureza, mas que se de fato ocorreu, é um fenômeno natural, mas pelo fato de nós não estamos habituados a ele, chamamos de milagre.(Vejam bem, não estou dizendo que os pacientes voltarem a andar seja de fato um milagre.)

Chegamos finalmente em Kant, cuja obra mais famosa é a Crítica da Razão Pura. Para ele, a nossa razão possuía certas premissas, como por exemplo o tempo e o espaço (que pra ele, discordando nesse ponto de Hume, eram anteriores à própria experiência). Assim, a razão não deve ter uma importância tão exagerada porque não é um local de experiências e impressões objetivas, mas é também criativa. É como se a realidade fosse a água, e a nossa razão fosse um jarro. Jamais conseguiremos apreender a forma pura e absoluta da água, que sempre tomará a forma do jarro – a diferença entre as coisas “em si” e em como elas se nos mostram.


Agora vamos ao título do post. As grandes questões filosóficas que se impõem desde a Antigüidade e se mantêm até hoje, são, basicamente: se o homem possui uma alma imortal, se Deus existe, se a natureza é composta por unidades mínimas indivisíveis e se o universo é finito ou não. Basicamente, para onde vamos (depois da morte) e de onde viemos. Aqui é onde a Religião se aproxima de novo da Ciência, porque é a essas grandes questões filosóficas que ambas buscam responder. É por isso que criamos aceleradores de partículas, viajamos para o espaço, procuramos cada vez mais meios de prolongar a vida.

Kant achava, e eu concordo com ele, que o homem jamais seria capaz de chegar a um conhecimento seguro a respeito dessas questões – pelo menos através da razão. Isso porque uma das características que ele defendia como inatas da razão humana era a busca de relações causais. Em O Mundo de Sofia, o exemplo que se usa é o de que ao jogar uma bola do lado de um gato, ele corre atrás dela; se jogá-la ao lado de uma pessoa, ela vira-se para saber de onde veio a bola. Mas se estamos dentro da bola, como seremos capazes de enxergar de onde ela veio?

Para a razão, portanto, faz tanto sentido dizer que o mundo teve um começo no tempo, quanto dizer que não houve começo algum, pois ela é incapaz de abarcar qualquer das possibilidades; nenhuma faz sentido, racionalmente, mas uma das duas tem de ser verdade. Por isso, para Kant, a teoria cartesiana do post passado está furada, pois não há meios racionais para provar a existência de Deus – nem tampouco para refutá-la. É nessa zona obscura em que não consegue chegar nem a razão nem a experiência que encontra-se a fé. É por essas e outras que tanta gente diz que o ateísmo é uma espécie de religião; eu pelo menos, não consigo imaginar um meio de ser ateu que não seja usando de tanta fé quanto se precisa para ser religioso. Claro, considerando as pessoas que realmente pensam a respeito do assunto, pois acho que tanto um lado quanto o outro são compostos por uma maioria cega que encontrou um espaço mais cômodo em uma opinião formada, lapidada e consagrada.

Se o divino é uma criação do homem a sua imagem e semelhança, necessário à moral e à formação do indivíduo (como defendia Freud) ou desnecessário e prejudicial à sociedade e à própria humanidade (como defendia Feuerbach); ou se o homem ou tudo o que cremos existir sequer existe em matéria, e não passa de uma manifestação divina pura (como defendia Berkeley); ou se somos unos com Deus e com o resto do Universo (como afirmava Plotino e outros místicos como Swami Vivekananda ou Radhakrishnan), são coisas que eu não sei e provavelmente nunca vou saber. E, a meu ver, nem a ciência.


Só pra terminar, já que o Gustavo falou da experiência mística. Nela, quase toda a filosofia da religião perde um pouco de seu valor, pois há o contato e há o empírico. Mas eu discordo um pouco do que ele disse, que acaba sendo um ponto de vista bem negativo da religião, como se só o místico fosse verdadeiro – típico de um empirista. Eu não diria que a religião é o místico morto e petrificado, e sim simplificado e talvez massificado. Não dá pra esquecer que, em geral, a religião é em si o principal caminho pra experiência mística. E, usando a analogia que você disse, o orgasmo é fantástico, mas tem todo o sexo antes. Ou a masturbação, ou o beijo, ou o relacionamento em si. E o sexo não precisa terminar em orgasmo pra ser muito bom! ; )


Sei que esse texto ficou absurdamente comprido e fugiu bastante do tema da própria ciência em si pra se perder na filosofia. Isso porque ele era uma continuação de outro texto (que também se perdeu bastante, porque eu ia falar bastante do darwinismo por aqui, e o assunto nem apareceu; mas oportunidades não vão faltar) e porque eu estou lendo muito sobre filosofia.

Mas pros preguiçosos, pretendo dar uma folga e os próximos posts serão sobre amenidades, ou notícias, ou cinema.

5 comentários:

Gustavo disse...

Nossa quanto fôlego, muito interessante. Passarei a acompanhar mais essa blogueira ^^

Gustavo Rocha Dias disse...

Sobre a relação "religião/místico" e seu paralelo com "sexo/orgasmo" acho que não é muito boa, pois o sexo sempre lhe mostra o caminho em direção ao orgasmo, enquanto as grandes religiões em geral só esconderam o caminho que leva à União Mística. =)

Douglas Neves disse...

Como não consegui responder nada ainda, vou só escrever minha opinião, em relação a esses 4 últimos posts.

A religião e a ciência são antíteses já em sua concepção.

A religião é baseada na fé, e a fé nada mais é do que "acreditar em algo sem que haja alguma prova da veracidade daquilo"
A ciência é exatamente o contrário, e só acredita em algo que seja provado.

Claro que existe uma parte de fé na ciência, que são chamadas de hipóteses. Hipóteses podem ser verdades ou não, e é por isso que os cientistas se esforçam tanto em descobrir se uma hipótese é verdadeira ou não. E se um cientista descobre que uma hipotese é falsa, ele mostra a prova para todos os outros cientistas e aquela ídeia some. Ou seja, a ciência em si é uma busca pela verdade, e nada mais do que isso. E, se existem coisas que ainda não podem ser provadas, elas continuam no âmbito das hipóteses, como por exemplo a existência ou não de Deus.

A religião, por outro lado, é exatamente o contrário. Ela não busca a verdade, e não busca evoluir de forma alguma. Na verdade ela inventa novas mentiras somente para permanecer imutável. E isso, ao meu ver, é o grande problema.
Devemos sempre buscar a verdade, por mais intangível que ela possa parecer.

Dizer que o ateísmo é uma religião é uma falácia lógica das piores.
É obvio que não se pode provar que Deus não existe, simplesmente por que é impossível provar que qualquer coisa não existe. Se eu digo pra você que existe um porco rosa sentado no meu ombro o tempo todo, você certamente não vai acreditar em mim. Você, NUNCA vai conseguir provar que eu estou errado, mas lá no fundo você sabe que o porco invisével não existe.
Eu penso o mesmo de Deus.

E, é sim possível provar de maneira ciêntifica que Deus existe (se ele existir).
E, não, o fato de algum conhecido seu ter "conversado com Jesus" ou visto "Deus" não é prova de nada... na verdade é quase prova de esquizofrenia.

L.S. Alves disse...

De fato não cheguei a conclusão nenhuma no momento. Muita informação pra digerir de uma vez só.
Vou favoritar o teu blog e acompanhar um pouco.
Um abraço e boa sorte.

Luiz disse...

Parabéns pelo blog