terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Um livro para meninas

Apesar do meu punhado de livros pra ler, todos lá esperando do lado da minha cama, ganhei de presente da minha vó o best-seller Crepúsculo, da Stephenie Meyer, que tá fazendo um baita sucesso por aí. Quando fiquei sabendo que eram 4 livros, resolvi começar logo a ler pra ver se terminava antes do prazo de troca e ir na livraria pegar o segundo (rs), mas como foi presente, não sou (muito) trambiqueira, e já prometi emprestar o livro pra meio mundo, me conveci de que não ia trocar o livro, e sim ler rápido o bastante para poder ganhar o próximo de aniversário.
Confesso que nunca tinha ouvido falar da série, a não ser quando minha vó comentou que estava saindo um filme de vampiros baseado em um bestseller, e que devia ser bonitinho. Por um momento me perguntei como diabos um filme de vampiros seria bonitinho, mas desencanei; depois vi o teaser do filme na tv, e foi só. Quando ganhei o livro de presente, li a contracapa e as orelhas (juro que um dia vou parar de fazer isso, porque geralmente acaba estragando pelo menos alguma surpresa do livro). Nada muito chamativo, comecei a ler lembrando dos outros bestsellers de vampiro de que eu tanto gosto.
Aí foi dando pra perceber por que a minha vó classificaria como "bonitinho" um filme sobre vampiros. Nada cheio de ação, lutas e mortes, como os livros do André Vianco; nada sombrio e sensual, como a Anne Rice. Não, o livro parecia mais com algo do tipo "Se a Mia Thermopolis se apaixonasse por um vampiro..." (Mia Thermopolis é a protagonista da série da Meg Cabot, O Diário da Princesa).
O livro é sobre uma paixão adolescente mesmo, com um enredo até certo ponto digno de filme da Disney. A protagonista é Isabella Swan (só Bella), que se muda do ensolarado Arizona pra uma odiada e chuvosa cidadezinha em Washington para morar com seu pai. Quando chega na escola, torna-se o centro das atenções por ser a garota nova da cidade grande, mas apesar dos diversos garotos caindo a seus pés, o centro das atenções dela é a família Cullen, composta por 5 jovens lindos, maravilhosos e isolados do resto da escola. Sempre que está no refeitório, não consegue desviar a atenção do estranhamente belo e pálido grupo, os dois casais (calma, eles são filhos adotivos de um pai casamenteiro) Emmet e Rosalie, Jasper e Alice, e, particularmente, Edward.
O bonitão solteiro não fica indiferente à moça, e age muito estranhamente, lançando-lhe olhares de indignação, nojo e raiva, depois a ignorando completamente, e, finalmente, resolvendo ser gentil e conversar com ela.
Considerando que vocês também devem ler a contracapa e as orelhas do livro, ou ver o trailer do filme, não considero spoiler contar mais que isso; ambos ficam extremamente envolvidos, e Bella, após ver coisas estranhas (como a supervelocidade e a força sobrenatural de Edward) e ouvir as lendas indígenas do local (sabe como é, o de sempre), acaba chegando à conclusão de que seu amado é um vampiro.
É isso, um romacezinho adolescente bem açucarado e previsível... que eu não consegui largar antes de chegar ao fim. Devo ter lido as 400 páginas em umas 8h, divididas em 2 dias, o que contraria absolutamente tudo o que eu disse anteriormente que parecia apontar que eu não gostei. Gostei sim. Como eu disse no título, é um livro pra meninas, e eu sou uma menina, apesar de não parecer. Mais do que isso, é um livro pra pessoas românticas, e talvez pelas garotas serem mais propensas a isso, avaliei o livro dessa forma. Mas não desfaço minha impressão de que um homem (ou mesmo uma mulher como a Anne Rice) não poderia tê-lo escrito.
Essa é a Stephenie Meyer, coloquei as duas fotos só porque
quando as encontrei, fiquei impressionada com
o que um
corte de cabelo e uma maquiagem pode fazer com uma pessoa...


Como eu já disse em outro post também, reconheço o mérito de livros que conseguem vender aos montes, e fazer milhões de crianças e adolescentes largarem a televisão por uns instantes. Claro que logo depois eles se enfiam nas milhares de comunidades, blogs e fãs-clubes do mais recente casal de heróis do livro novo, mas isso também é inevitável. Sair um filme do livro rapidinho pra ver se botam de novo os adolescentes na frente da tela e uns milhões no bolso também é.
E também já falei um pouco da receita desses best-sellers - linguagem simples (o fato de serem traduzidos de outra língua costuma ajudar), parágrafos, frases e idéias curtas. Uma uniformidade estilística que me faz ser incapaz de distinguir a individualidade dos autores se me derem só os textos pra ler (menos o Stephen King, porque ele é demais). Só que Stephenie Meyer, nesse livro, tem um mérito a mais: poucas vezes eu consegui me identificar tanto com um personagem.
Com a vantagem de ser em primeira pessoa, o que dispensa auto-descrições, o leitor literalmente é Bella Swan, pensa o que ela pensa, vê o que ela vê, tudo atravás dos olhos de uma garota comum, afinal quem não se acha esquisita, tem problemas de comunicação com os pais, odeia as pessoas da escola (e a educação física) e sonha com o príncipe encantado? Pelo menos pra mim, o apelo funcionou bem, e eu ri junto com ela, fiquei angustiada, esperava ansiosa pra ver se Edward iria à escola hoje, se apareceria de novo pra me salvar na hora certa... e antes da página 150, eu também estava perdidamente apaixonada por Edward Cullen, pensando em quando o veria de novo após largar o livro pros "afazeres humanos", que de repente pareciam supérfluos, como comer.
Afinal, não é difícil se apaixoinar por um cara cujo único e terrível defeito é justamente algo tão fascinante como ser um vampiro fofo que nem se alimenta de sangue humano. É demais para a cabeça de qualquer uma. E fora o comum de Bella que a faz se identificar fácil com o leitor, não dá pra esquecer do sentimento que permeia os parágrafos, tudo descrito em primeira pessoa, tudo tão real. Todo mundo que já esteve apaixonado é capaz de se reconhecer nas páginas do livro - afinal, todo apaixonado é um melodramático romântico pronto a dar a vida por seu amor exageradamente maravilhoso (oh, meu deus, o que ele pode ter visto em alguém como eu?). E é por isso que eu perdôo o teor totalmente açucarado, exagerado e adolescente de Crepúsculo, e estou relativamente ansiosa para ler a continuação, Lua Nova (não é nada como um Harry Potter, mas enfim).
Objetivamente, reitero o que eu disse - não recomendo esse livro pra ninguém que ou não esteja na adolescência ou que ache sentir-se um adolescente de novo é algo idiota e quer fazer algo mais útil da vida, algo interessante como fazer o imposto de renda. Porque é difícil pensar em alguma coisa divertida na vida de um adulto que não seja fazer algo de criança ou de adolescente de novo, não é? Recomendo o livro pros românticos e apaixonados, ou que querem se apaixonar de novo, e talvez até pros meninos. Afinal, não vamos subestimá-los, não é, se eu sou capaz de entender e gostar de um livro eminentemente para homens de 40 e poucos, como O Lobo da Estepe, porque um cara não poderia gostar de um livro pra meninas de 17? É uma questão de ser eclético e de ser capaz de se identificar simplesmente com sentimentos humanos.
Pra esse post não ficar muito grande, vou falar do filme só amanhã! =)

4 comentários:

Fabiana Raposo disse...

Adorei! :-O

Basta ser sincero pra fazer uma ótima propaganda...

P.S.: Eu sou a primeira da fila de empréstimo? Hehehe

yukitori disse...

Por isso que eu gosto de ler uma literatura mais descompromissada de vez em quando. =D

A gente geralmente não espera nada, e acaba se surpreendendo!

Ótimo texto!

Gustavo Rocha Dias disse...

Ótima crítica, você já pode procurar emprego na FNAC ou na Cultura, hehehe.

Acho que o objetivo do livro é ser uma ferramenta que permita ao leitor se sintonizar com outra situação/personagem além dos que ele está acostumado. Claro que a maior parte das pessoas é narcisista e só gosta de ver a história quando ele já está lá.

Mas muitos são capazes de (/apaixonados por) se colocar em diversas situações, estes são os que devorarão pilhas de livros.

A adolescência possui muias belezas, e a maior parte dela fica magnetizada na mente dos adultos para sempre, pois você pode acompanhar a infância dos seus filhos ou voltar a ser criança por um dia, mas ele não deixará você participar da adolescência dele e você não vai conseguir se enturmar com eles.

As adolescências geralmente são mal resolvidas e muito distantes da idealização gerada pela mente juvenil, que junto com a carga de hormônios colaboram em deixar fortes cicatrizes na mente.

Portanto este tema tem de tudo para gerar Best Sellers a rodo, assim gerou filhotes o "mundo mágico" de Harry Potter, que possui tanto em comum com o nosso exceto pela dura banalidade que a realidade nos impõe.

Camila disse...

De fato, existem livros que por mais que o conteúdo seja duvidoso, é impossível parar de ler. Isso aconteceu comigo quando eu li os livros do Dan Brown. E eu particularmente, gosto de alguns romances fúteis, faz a vida naquele instante parecer mais leve.

Já O Lobo da Estepe é o tipo de livro que o prazer não vem só da leitura, mas da reflexão e das conclusões que se chega após lê-lo.