terça-feira, 22 de julho de 2008

Conversa de cabelereiro

Semana passada eu fui ao cabelereiro.
Entre todas aquelas discussões profundas que se escuta por lá, acabei ouvindo uma que me fez pensar em como as pessoas são hipócritas.
Era sobre o velho tema da violência:

- Outro dia pegaram uns caras que tinham roubado um carro aqui na rua e o PM amigo meu falou que os cara saíram com mão na cabeça e tal, mas que eles mandaram os cara deitar no chão e metero bala ali mesmo, depois disseram que teve troca de tiro.
- É, tem que ser assim mesmo. Uns amigos meus também, um tempo atrás, numa ronda, pararam um carro, acharam estranho, foram abrir o porta-malas e tava o dono do carro lá, todo cagado. Um homem trabalhador não precisa passar por uma humilhação dessas não. Mataram o primeiro e o segundo ficou em estado de choque, só começou a gritar quando começou a derreter porque os cara colocaram ele no microondas, sabe, aquele monte de pneu e taca fogo.

E a conversa foi longe, sempre no teor "É, tem que ser assim mesmo", "Os cara tem que saber quem é que manda", "Se não fizer isso, amanhã ou depois pega alguém da sua família", e por aí vai.

Acho incrível a falta de capacidade de raciocínio dessas pessoas. Será que o policial que sai atirando em gente por aí é um herói justiceiro fazendo bem mais do que o lixo de salário que ele recebe paga ele pra fazer? Ou será que ele faz isso por um apreço pela violência tão grande quanto o do bandido, que às vezes foi o próprio motivo que levou o cara a procurar a profissão?
Será que os fãs do Capitão Nascimento não enxergam que esses policiais despreparados e com atitudes impulsivas e violentas são exatamente os mesmos que mais cedo ou mais tarde acabam metralhando carros de família por aí e matando crianças, como aconteceu mais de uma vez esse mês?
Será que eu quero colocar na mão de um cara despreparado que ganha R$1500 por mês a função de PM, promotor, juíz e carrasco?
Será que é mais conveniente simplesmente esquecer que o cara que levou os tiros no chão é filho de alguém, marido de alguém, pai de alguém?

Ah, e voltando à hipocrisia que eu tinha falado no começo. É engraçado ver como as pessoas (como quem estava discutindo isso no cabelereiro) que apóiam essa aplicação informal da pena de morte e têm tanta facilidade pra esquecer que o bandido, por pior que seja, é um ser humano que não merece ser julgado em alguns segundos, casam-se e batizam seus filhos na Igreja Católica Apostólica Romana e andam com o adesivinho da nossa senhora na traseira do carro.
(A Igreja Católica foi só um exemplo, porque lembro do batizado do filho do cara, não ficaria mais surpresa se ele fosse Crente ou sei lá. Não tenho nada contra a Igreja; na verdade, tenho muitas coisas, mas não vêm ao caso nem é momento de discutí-las. )

PS: eu ia mandar outro link, do caso do menino de 3 anos que morreu no RJ no começo do mês, mas no site, do lado da foto dos pais da criança chorando e do carro baleado, tinha um videozinho de umas gostosonas de pompom dançando animadas pra anunciar o fantástico novo carro da Fiat, e eu não quis compartilhar a experiência.

Ah, a propósito, o cabelo ficou ótimo!

3 comentários:

Douglas Neves disse...

Exatamente!

Eu poderia fazer um blog só sobre as pessoas que usam um adesivo de um peixe atrás de seus carros. (eu disse um BLOG, e não um post..)

Se a justiça do Brasil é falha, imagina a justiça de um PM semi-analfabeto (não quero julgar os PMs, não é culpa de ninguém ser semi-analfabeto e nem todos os PMs são semi-analfabetos... mas aposto que os que aplicam justiça com as próprias mão são!).

Manobrown disse...

Apoiado meirmão.

Metal Mendigo disse...

Pois é, eu convivi por dois anos com muitos funcionários públicos e todos são extremamente burros e despreparados para a profissão que ecercem, os professores,os médicos e, não poderiam ficar de fora, os "poliças". A violência só gera mais violência. O bândido (asssumido e não fardado) se torna mais extremista, mata sem pensar, pois não quer ter o risco de ser executado. Os PM's matam inocentes, como a pobre criança ou o empresário confundido com o bandido.
E além de tudo isso, a morte é pouco para muitos assassinos. Morreu acabou. E passar o resto da vida inteira trancado em uma cela? Sem poder ver sua familia, seus amigos? É o pior castigo do mundo.