domingo, 10 de agosto de 2008

Literatura nas Escolas

Acho que o ensino de Literatura nas escolas é uma droga.
A grande maioria das pessoas não lê o livros e muitos dos que leêm não gostam.
Como acontece: a tia Marocas ensina Literatura usando basicamente a ordem cronológica; ensina aquela Escola Literária, os autores de Língua Portuguesa importantes naquele contexto e as obras mais importantes. Escolhe a que ela acha mais relevante - ou a que a Fuvest acha - e manda os alunos lerem, e na prova cobra tudo isso do aluno.
A coisa já começa não dando certo, porque a maioria das escolas começa a ensinar Literatura no 1º ano do Ensino Médio, quando os alunos têm 14 ou 15 anos. E, pela ordem histórica, querem nos ensinar Trovadorismo, Humanismo, Classissismo... um monte de chatices que dão uma primeira má impressão à maioria das pessoas. Aí, a tia Marocas quer que você leia Os Lusíadas, mas como ela tem (o mínimo de) bom senso, sabe que os seres iluminados de 15 anos não têm capacidade de ler e entender um livro desses e manda você ler a bendita versão adaptada, daquelas da Série Reencontro, que só conta a história do livro - que, no caso dos Lusíadas, é MUITO chata. E por aí vai, temos que ler Alencar, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco e um monte de outros chatos que não nos dizem nada. Claro, às vezes tiramos alguma coisa boa dos livros, conhecemos autores bons e aprendemos coisas novas. Não vou dizer que eu não admire Os Lusíadas e toda aquela maluquice de versos decassílabos, mas até hoje não tive saco pra ler tudo. (O Camilo Castelo Branco sim, eu já li, e não recomendo nem pro meu pior inimigo!)
Outra coisa que acho péssima é que a Literatura que aprendemos é exclusivamente de Língua Portuguesa, deixando-nos com a impressão de que antes dos trovadores ou de Camões, ninguém nunca escreveu nada que valesse a pena ser lido, e que durante os movimentos literários, os brasileiros e portugueses sofreram diversas influências, mas não sabemos diretamente de quem, de onde ou por quê.
Acho que é importante ensinar Literatura, mas acho que do jeito que é feito, o prejuízo causado pode ser maior que os possíveis benefícios a uma parcela dos alunos. Acho que já disse isso, mas a minha tia Marocas da 8ª série me mandou ler Esaú e Jacó e quase me fez odiar Machado de Assis, simplesmente porque eu não tinha maturidade pra ler aquele livro. Ela mandou a gente ler O Quinze, da Rachel de Queiroz também, e eu nunca superei esse trauma (nunca tentei ler de novo). Se eu, que sempre gostei de ler e sempre li muito quase morri, imagina aqueles que penavam pra ler Pedro Bandeira nos anos anteriores!
Mas a tia Érika, se fosse professora de Literatura faria tudo diferente. Acho que seria legal se as Escolas Literárias fossem ensinadas sim, e explicadas com base em textos, em pedaços de obras de autores importantes, em exemplos, e não necessariamente em livros inteiros. E acho que isso devia ser ensinado de forma contextualizada, com os autores importantes de outras línguas, e não só do português. Por que fingir que não existiram Sófocles, Homero, Virgílio, Dante Alighieri, Cervantes, Goethe, Baudelaire, Oscar Wilde, Dostoiévski, Tolstói, Mark Twain e Charles Dickens, só como exemplos?
Aí o aluno escolhe o que ele quer ler, só o que ele quiser. Aqueles alunos mais nerds, que aprovaitam o ensino de Literatura do jeito que é, provavelmente escolhem um dos livros da lista de sugestões do professor, que são relevantes praquele período literário estudado. Os que não tiverem interesse nenhum em ler um desses livros, ou simplesmente estiverem com preguiça ou com muitas outras coisas pra fazer, podem escolher QUALQUER livro, até um daqueles da Série Vaga-lume ou um Harry Potter, só tem que ler um livro aquele mês. Aí o professor pode pedir um trabalho sobre o livro, pedindo por exemplo pro aluno identificar um trecho que tenha a ver com alguma característica de alguma escola literária que já estudaram, ou mesmo não pedir nada, só o nome do livro que está lendo, por que escolheu aquele e o que mais gostou. O número de um livro por mês também pode ser negociável, pra estimular a leitura de livros mais grossos (por exemplo, se você quiser ler um livro com mais de 250 páginas, pode levar 2 meses e assim por diante).
Eu provavelment nunca vou dar aula de Literatura na vida, claro que não sei se nada disso que eu disse daria certo, mas, considerando que do jeito atual não dá certo pra maioria, talvez fosse interessante tentar (né, Fabi?).
Conheci muitos livros bons quando estudava Literatura, e gosatava muito dos livros (nem tanto das aulas). Mas eu tirei 4,5 no bimestre do Trovadorismo, e continuo achando um desaforo mandar alunos de 16 ou 17 anos lerem Guimarães Rosa, pelo menos eu acho que ele está num nível que transcende muito o meu, mesmo hoje em dia.

7 comentários:

Douglas Neves disse...

Hahahaha, eu acho que você deveria ser professora :)
O que eu não daria para nunca precisar ter lido "Fogo Morto"...
Meu maior trauma!

Aliais, concordo plenamente quando você diz que a gente deveria estudar autores de outros países também!

A literatura portuguesa arcaica, sobre índios anti-heróis, pra mim parece hipocrisia demais...
Fora que é muito chato! hahaha

drewa disse...

Pow, só agora que visitei teu blog de novo e vi que vc tinha respondido meu outro post. Nem tinha te reconhecido pela foto. Mas eu sou o amigo do Doug daquele dia sim!
Então, eu criei um blog recentemente mas acho que vou falar mais sobre esportes nele :P
Mas se quiser comenta lá.

Sobre esse teu post, eu sempre defendi que deveríamos aprender alguma coisa sobre literatura de outros países também. Acho um absurdo que no Brasil, mesmo os que estudam em escolas de alto nível, completem o colegial sem sequer saber quem foram os autores que vc mencionou no post. Não que eu ache que devemos parar de estudar os autores brasileiros e portugueses, mas como vc disse, não é necessário estudarmos livros inteiros pra conhecermos o básico da literatura. Aliás, uma coisa que sempre abominei são os vestibulares que elaboram uma lista com meia dúzia de livros sobre os quais eles vão fazer suas perguntas, e fica parecendo que nossa literatura se resume a essa pequena listinha, como se todo o resto fosse desprezível.

É isso ae. Bjos!

Julio Lucchesi disse...

Concordo plenamente: trago péssimas recordações da maioria de minhas aulas de literatura do colégio e foram precisos muitos anos (e muito esforço mental) pra tirar aquelas idéias pré-formatadas da cabeça e entender que (1) há mais coisa no mundo do que o que foi escrito em português e (2) aquela história de romantismo-realismo-naturalismo-simbolismo-modernismo etc-ismo atravanca o pensamento!

valdecirpoesias disse...

Erika, gostei do texto que você escreveu sobre o ensino de literatura nas escolas, maior parte do que disse é verdade e nós precisamos propor metodologias que atendam às necessidades dos alunos na faixa etária que vc mencionou, porque não começar ensinando Literatura antes do 1.º Ano? E, de preferência, dando oportunidades para que os alunos escolham o que querem ler?

[De]lírio [de] Íris disse...

Bom, faz todo o sentido o que você expôs... tanto que na faculdade (pelo menos na Letras - USP) não tem essa de ordem cronológica (mentira, em Lit. Portuguesa tem, mas não é bem certinha, não). Em Lit. Brasileira I eu tive Bandeira e Drummond. :)
E mais: nós acabamos estudando outras literaturas por causa das influências... rolou Flaubert antes de Eça, etc, etc. Por que não pode ser assim no ensino médio? Provavelmente é caso de subestimação.

Mas é preciso lembrar que MUITOS professores seguem direitinho o livrinho didático de outra tia Maroca... fora o projeto pedagógico emperrando, que obriga o professor a passar as coisas de um jeito ou de outro... Por exemplo, nas escolas públicas estaduais de SP os professores devem seguir um caderninho maldito obrigatório. Ele não é totalmente ruim, já que alguns professores mal passavam algo mesmo... mas e a liberdade que deveria existir para o professor montar suas aulas como quer, de acordo com as turmas?

bruna disse...

Os Luisadas realmente é terrível , estou tendo que lêr esse livro na escola , e na verdade não estou entendendo nada , e olha que é a série reencontro . Acho que não têm nem difernça alguma .

Boberny disse...

"Tia" Érika, estou me preparando para um concurso como professor de Português/ Literatura em uma escola pública federal e acabei encontrando o seu blog. Fiquei admirado com a sua maturidade didática em termos de metodologia. Apesar de vc não ser professora de literatura, sua sensibilidade para o que deveria ser feito em sala de aula é de fato surpreendente. Concordo plenamente com vc, quando afirma que "obrigar" a ler não é a melhor forma de incentivar a leitura. A negociação acerca da quantidade de livros a serem lidos também é importante. Eu só acrescentaria aos seus comentários, brilhantemente postados no blog, que uma leitura, digamos, "coletiva" (em outras palavras, todo mundo lendo o mesmo livro) é importante na medida em que os alunos poderiam, nesse caso, discutir suas impressões de leitura uns com os outros e, dessa forma, outras habilidades estariam sendo trabalhadas, como, por exemplo, a capacidade de argumentação (por que vc gostou mais desse trecho?), ou de síntese (de qual parte vc tá falando? eu não me lembro...), dentre outras. As características das escolas literárias estariam restritas apenas à contextualização histórica da obra, uma vez que entender o contexto social da época em que um livro foi escrito é imprescindível muitas vezes. Quer um exemplo? Como entender que "Marília de Dirceu" começa com um climinha de felicidade e termina com o jogo de palavras mais mórbido e desiludido? Só sabendo que Tomáz Antônio Gonzaga, seu autor, um dos inconfidentes, foi preso e acusado do crime de lesa-majestade, no meio da sua produção literária...
Enfim, eu só acabei "caindo" no seu blog mesmo porque estava fazendo uma pesquisa sobre o ensino de literatura na escola (um dos tópicos do tal concurso a que me referi antes) e acabei me interessando pela sua sensibilidade didática. Meu comentário foi só para elogiá-la...
Um grande abraço e sucesso pra vc, seja lá em qual carreira tenha optado seguir (a classe dos professores de português/literatura certamente perdeu uma profissional competentíssima e eu, ainda bem, tenho menos uma concorrente forte para o meu concurso, rs...)